Amigoone


Se eu fosse você
agosto 8, 2009, 1:33 am
Filed under: Por Klaine

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Hoje eu encontrei o seu cão. Sim, o seu mesmo. Aquele que você conheceu quando tinha poucos meses, que você levou para dar o primeiro passeio, que você xingou depois de ter encontrado seu sapato em pedaços. Só em tê-lo visto, pude notar o quão você foi importante pra ele. E ainda é. Foi você quem lhe deu um nome, comida, lar, brinquedos e o mais importante: carinho, atenção. Não, ele não foi adotado. Muita gente aqui da rua já tem os seus cães e os que não têm, não querem. Tentei me aproximar, ele demonstrou desconfiança. Ele estava muito magro e não conseguia apoiar uma de suas patas no chão, de longe pude ver que ali havia um ferimento. Continuei tentando chegar mais perto, mas a cada passo em sua direção que eu dava, para trás ele dava em dobro. Você precisava ter visto o estado que estava o seu cão. Eu sei que, quando você o deixou aqui, esperava que ele encontrasse alguém que o adotasse. Mas não aconteceu…

Naquele momento em que parei em sua frente o que eu mais queria era ser você. Para poder ver o brilho que surgiria em seus olhos e sua cauda abanando quando pulasse em seus braços, a felicidade que sentiria. Ele sabia que você não o esqueceria, pois um dia disse à ele que o amava e cuidaria dele para sempre. Você não lembra disso? Ele nunca esqueceu. Ele só tinha uma certeza: a de que ainda encontraria você. Mas eu não era você. E, apesar de todas as minhas tentativas de aproximação e por mais qu eu demonstrasse o quanto gostaria de ajudá-lo, em mim ele só via um desconhecido. Ele não confiava em mim.

Ele virou as costas e seguiu o seu caminho, do qual tinha certeza que levaria até você. Ele não entende que você não está procurando por ele, que você o esqueceu. Ele só sabe que você não está lá e precisa ir ao seu encontro, afinal você pode estar correndo perigo e ele precisa te proteger. Isto é mais importante que comida, água ou o estranho que pode lhe oferecer essas coisas. Ao domesticá-lo você tirou o seu instinto de sobrevivência nas ruas, ele não sabe que o sol, o calor e o cansaço podem custar-lhe a vida. Ele só sabe que precisa achar o seu dono, a pessoa que lhe criou e o qual ele é completamente fiel. Sabe que terá de caminhar o dia todo, se for preciso.

Percebi que seria inútil tentar persuadí-lo ou seguí-lo. Eu nem sei seu nome. Fui para casa, enxi um balde de água e uma vasilha de comida e voltei para o lugar onde havia o encontrado. Nenhum sinal dele. Mas deixei as vasilhas debaixo da árvore da qual ele havia parado alguns poucos minutos para um breve descanço. Aguardei o dia todo na esperança de que ele voltasse em busca de abrigo e alimento, na esperança de que a água e a comida que levei fizesse com que ele confiasse em mim e eu pudesse levá-lo para casa, cuidar de seus ferimentos, oferecer-lhe alimento, uma cama quentinha e o ajudasse a entender que, de agora em diante, você já não faz mais parte de sua vida. Ele não voltou naquele dia. Ao amanhecer fui conferir e a água e a comida permaneciam intocadas. Fiquei preocupada. Você deve saber que poucas pessoas tentariam ajudar seu cão. Algumas o enxotariam, tentariam agredí-lo, chamariam a carroçinha – que lhe daria o destino do qual você achou que o estava salvando.

Voltei ao local antes de anoitecer, mas ele não voltara para se alimentar. Ah, se você estivesse aqui para chamar seu nome. Sua voz é tão familiar para ele. Com certeza viria correndo e pularia em você. Seria o segundo dia mais feliz de sua vida – o primeiro foi quando vocês se conheceram. Fui, então, caminhando na direção que ele havia tomado ontem. Sabendo já que não o encontraria. Ele estava tão desesperado para te encontrar, que seria capaz de andar muitos quilometros em um só dia.

Depois de muitas horas caminhando, eu finalmente encontrei o seu cão. A sede e a fome já não o encomodavam mais. O machucado na pata já não era mais problema e as suas dores haviam passado. Agora seu cão está livre de todo sofrimento, como você desejou quando o abandonou. Agora seu cão está morto. Ajoelhei-me ao lado dele e amaldiçoei você por não estar aqui ontem para que eu pudesse ver o brilho, ainda que por um instante sequer, em seus olhos vazios. Rezei, pedindo que a sua jornada tenha o levado àquele lugar que acho que você esperava que ele encontrasse. Se você soubesse por quanta coisa ele passou para chegar lá.. E eu sofro, pois sei que, se ele acordasse agora e se eu fosse você, seus olhos brilhariam ao reconhecê-lo e mesmo que estivesse perto da morte, o importante para ele seria ter atingido o seu objetivo: encontrar você. E então ele abanaria o rabo, daria-lhe uma lambida e te perdoaria por tê-lo abandonado.
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7 Comentários so far
Deixe um comentário

Muito lindo.
Amo meus cachorros.

Abraços
http://www.anetux.com.br

Comentário por Acácio

Ai que lindo, Kah!
Sério.. É realmente assim que acontece. Foi tu que escreveste o texto? Muito lindo e emocionante.

Beijo!

Comentário por verossimilhando

Ah, eu estava passando pelos ultimos blogs atualizados e vi o seu.
Passe lá sempre que quiser.

Abraços

http://www.anetux.com.br

Comentário por Acácio

Na Record tá passando agora uma reportagem de uma mulher que cuida dos animais abandonados em Caxias do Sul! Parte o coração. :~
Vê se tu acha alguma coisa na internet depois. :*

Comentário por verossimilhando

Karine, lindo e comovente texto. Colocarei um link para ele em meu blog, ok?!

Abraços,
Priscila Coelho
blog Não Compre, Adote!

Comentário por Priscila Coelho

Amaldiçoei vc? adorei o texto, lindo. Mas numa situação dessas devemos pedir q Deus que tenha misericórdia dessas pessoas e não amaldiçoá-las. Deus cria cada um a sua maneira para que todas as coisas na terra andem a seu jeito. Não podemos obrigar ninguém a gostar de bichos como nós, apenas transmitir amor. O amor é que transforma.

beijoooooooooo

Comentário por Preta

Descobri teu blog. 🙂
Já passei por situações parecidas.
Já chorei de raiva por não saber quem era o fdp que abandonou uma criatura incapaz de fazer o mal.
Lindo texto. Fiquei emocionada..

Ps: Ah, se a maldição pegasse.. 😉

Comentário por Tainá




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